Miguel Nader vai viver no cinema a crise de um casamento

Miguel Nader será Guilherme no filme "Cordabamba" (Foto: Thiago Louza)

Começou a ser rodado em Niterói, no final do ano passado, o filme “Cordabamba”, a comédia romântica é uma produção independente e com a agenda toda confirmada

 

Começou a ser rodado em Niterói, no final do ano passado, o filme “Cordabamba”, com Miguel Nader. Protagonizando cenas de amor, o ator de 37 anos vive Guilherme, marido de Beatriz (Calu Lobo). Em seu 15º filme, Miguel vive uma experiência rara, um contrassenso para quem está acostumado a viver valentões na tela. A comédia romântica é uma produção independente e, mesmo sem apoio, está com a agenda toda confirmada. Para o ator, é importante valorizar os artistas da cidade, cada vez mais em evidência.

Como o filme se desenrola?
A história é muito simples. Fala sobre relacionamentos, um tema que muita gente já falou, mas ganha na simplicidade. O Guilherme veio a calhar porque parece que é o Miguel em cena. O personagem tem dez anos de casado, eu tenho 11. Junto com minha mulher, tenho 17. A relação que ele tem com a esposa e com a família é a mesma que a minha, de muita dedicação. Tanto que eu nem quis ler muito o roteiro. Li, entendi e vou fazer com as minhas palavras. O diretor me deu permissão para modificar algumas falas e deixar o Guilherme parecido comigo.

Guilherme e Beatriz vivem uma crise, surgida na cabeça dela. Como ele se posiciona?
Ele fica alheio à crise, já que não identifica os mesmos problemas que ela e nem consegue interpretar a vida deles da mesma maneira que a Beatriz faz. Isso mexeu mais com a cabeça dela. O Guilherme está em outro momento. Ele quer comemorar os dez anos de casado, está vidrado na família, apaixonado pela esposa.

O que você acha que aconteceu?
Tem a ver com acomodação do casal, mas não tem a ver com desgaste. Ele só tem olhos para ela. Tem até uma brincadeira entre eles, porque o Guilherme é um cara que gosta de fazer academia, é um cara que pratica esportes, chama atenção. Mas é o bonitão apaixonado pela mulher. Todo mundo gosta de ser desejado. Mas até que ponto permitir isso? A Beatriz se deixou levar por um desejo e chegou a considerar largar o casamento. Isso mexeu muito com ela. É difícil...

Como você se sente atuando em um papel tão diferente?
É a primeira vez que faço um personagem de marido comum. Geralmente sou o cara mais agressivo, que entra para matar, para agredir. Assassino e justiceiro sem lei. Voltando às origens. Em 16 anos de carreira, posso dizer que não é minha praia este negócio de dar beijo na boca em filme. É uma vez na vida e outra na morte. A outra vez foi na primeira temporada de “Força Tarefa”, em que eu fazia um tenente corrupto amigo do Murilo Benício, e me deram uma cena de sexo, de beijo, de tudo... De início, eu fiquei muito constrangido porque me tirou da comodidade. Mas acho que soube fazer bem.

Por que esta preferência por personagens agressivos?
Para mim, esse lance de matar nos papéis é muito mais cômodo. Eu nunca briguei na vida, mas esses personagens me dão possibilidade de colocar os sentimentos ruins para fora, sem precisar ser real. Uma vez atuei em um filme italiano que me permitiu um nível de violência muito grande. Em uma cena que vocês não assistiram, eu torturo outro personagem. Passamos horas gravando e, no final, o ator italiano ficou até com medo de mim, que entrei na pilha e coloquei mais terror ainda. (risos)

Não te incomoda fazer sempre o mesmo papel?
Muito pelo contrário. O meu tipo físico me proporciona estes tipos de trabalho, sou muito solicitado por ser grande. Nunca fui nem serei pequeno nesta vida. Então tenho que aproveitar isso. Pedi até para uma produtora de elencos que ela me convidasse para estes papéis, que eu ia curtir. Uma vez conversamos sobre uma antiga preocupação, a de ficar marcado demais, e ela me disse que o tempo me proporcionaria novas experiências, que, quando eu começasse a envelhecer, ficar com cabelos grisalhos, essas oportunidades apareceriam. Aí, decidi esperar.

Por que esta preferência por Niterói?
Quero ver se faço as coisas acontecerem por aqui. Este é um lugar muito bonito. Vendo através do olhar do Tchello [DRC, baixista da banda Detonautas e editor de fotografia do longa-metragem], de um olhar artístico, fica ainda mais fácil enxergar como Niterói é cheia de belezas. Ele está fazendo um trabalho incrível de fotografia, descobre ângulos que ninguém vê. Os artistas aqui são muito bons. A UFF já lançou um curso profissionalizante de teatro e fechou por falta de procura. O pessoal quer ir para o Rio, acha que tudo acontece no Rio. Eu sou formado em Niterói e nessa área a cidade não deixa nada a desejar para ninguém.

A Cada dia que passa, os humoristas e artistas da cidade estão se revelando.
Sim, a nossa equipe tem contribuído muito para isso. Só que essa preocupação de colocar Niterói em evidência não pode vir só de nós, artistas. Já perdemos aquele estigma de comer as sobras do Rio, mas é importante que as autoridades invistam nisso. Outros municípios, como o de Paulínia, no interior de São Paulo, têm produzido atrações musicais, lançamentos de filmes e eventos culturais que promovem a cidade como um todo, movimentando vários setores. É preciso perceber que a cultura precisa ser incentivada. Afinal, a gente merece.

Como é participar de um filme praticamente sem apoio?
Pode ser que a gente termine sem nenhum. Tivemos poucos apoios. Mas cinema tem dessas coisas. Se você pegar um roteiro, mostrar para o Lima Duarte e ele gostar, ele vai fazer o filme de graça. É só ter o cuidado de ter um carro para levá-lo e buscá-lo. Cinema tem essa coisa da paixão. Eu só recebi por três dos filmes que fiz. Foram cachês razoáveis, o resto foi de graça, sem nem ajuda de custo.

E, ainda assim, é possível viver de arte?
Quando eu digo que vivo de arte, é por conta do trabalho que faço na televisão, dos cursos que dou, das palestras... Mas todo mundo que faz cinema sabe disso. Fazemos este tipo de trabalho por ser uma obra que fica eternizada. Até o comprometimento é diferente. Quando os produtores me ligam para falar do filme, eu já até conheço o discurso. Eles começam dizendo que têm um personagem que é a minha cara, que preciso fazer... E depois vem a segunda parte: mas você sabe, né? É cinema... (risos)

É assim com todo artista de cinema?
Fazer cinema no Brasil é bem complicado. Alguns ganham. Mas são poucos. Fora isso, quem faz acredita muito na “vitrine”; acredita que vá abrir portas. É uma forma diferente de se mostrar para o público. Se eu arrebentar no cinema, as pessoas começam a me valorizar mais. Tem também a oportunidade de fazer personagens que não surgem na tevê; tem a visibilidade na mídia; é tudo diferente.



Fonte: http://jornal.ofluminense.com.br

 



 

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