Livro dá dicas como descobrir se alguém está mentindo

"A mentira é um ato instintivo de preservação do ser humano, sem ela a sociedade entraria em colapso. Pesquisas mostram que, em média, mentimos três vezes a cada dez minutos, mesmo que nem percebamos isso", diz o autor.  Foto: Divulgação

Autor é o único brasileiro a se certificar no Instituto de Treinamento em Análise de Comportamento, em San Diego, nos EUA, onde treinam agentes da CIA e FBI

Quem no mundo não quer saber quando uma pessoa está ou não está falando a verdade? Seja a mentira premeditada ou embaraçosa, uma coisa é certa: não há uma pessoa que não minta.

Encantado pelo tema, o perito criminal, com 12 anos de experiência, Wanderson Castilho, escreveu o livro “Mentira, um rosto de muitas faces”. O curitibano é o primeiro e, até agora, o único brasileiro a se certificar no Instituto de Treinamento em Análise de Comportamento, em San Diego, nos EUA, onde treinam agentes de segurança de organismos como CIA e FBI.

O livro é indicado para que público?
Advogados, jornalistas, médicos, empresários, negociadores, juízes, delegados de polícia, sindicalistas. A lista é grande e pode ser infinita, já que, por definição, todo e qualquer ser humano mente.

Que dicas do livro você ressaltaria sem entregar o “jogo”?
A mudança de padrão (baseline) é o indicativo mais importante para se detectar a mentira. Baseline é o mapa das expressões faciais e características de comportamento da pessoa numa conversa relaxada, em que ela não se sinta ansiosa, acuada ou pressionada a mentir. Na elaboração de um baseline, deve-se prestar atenção a aspectos como a frequência do piscar de olhos, o uso das sobrancelhas para dar ênfase a alguma parte da conversa, a posição das mãos, das pernas, a rigidez do ombro, o aspecto da testa, da boca. Para detectar uma mentira é preciso entender o comportamento padrão da pessoa, prestar atenção no que ela diz, prestar atenção nos pequenos movimentos do rosto, que são as microexpressões faciais, do corpo e nas variações do tom da voz. Nosso cérebro não aceita a negação. Quando você mente, está negando a verdade, e alguma parte da sua expressão facial ou do seu corpo vai denunciá-lo.

Você teve alguma inspiração pessoal para escrevê-lo?
Sou perito em crimes digitais, com 12 anos de experiência, e percebia que o crime e a mentira estavam juntos. Quando entrava em grandes empresas com mil computadores, pensava por qual iria começar. Aí, através de pesquisas, percebi a importância de ter uma ferramenta que, batendo o olho, pudesse indicar por onde começar o trabalho. Atrás de um crime sempre tem uma pessoa, do computador também. Então, inicio uma entrevista com a pessoa usando a técnica da mentira e ela me dá indicativos de onde tenho de materializar a prova. A detecção da mentira não é uma prova, é um indício.

Qual o sinal básico para saber que uma mentira está sendo contada?
Não existe um único indicativo que vale para todas as pessoas. Os sinais mais comuns que são indicativos de mentira são lábios (morder ou lamber os lábios pode ser um forte indício de mentira; voz (quem mente fica com as cordas vocais mais esticadas que o normal, deixando a voz mais fina e fraca. Para compensar, a pessoa tenta falar mais alto); olhar (o mentiroso desvia o olhar enquanto conta a sua mentira e depois passa a olhar atentamente, querendo observar se conseguiu enganar); secura (em função de uma reação da adrenalina, o mentiroso fica com a garganta e boca secas, sendo comum se engasgar ou engolir seco); encobrir parcialmente a boca (traduz uma vontade de amordaçar-se. Tende a ser um gesto rápido porque exprime um conflito: uma parte do mentiroso não quer calar-se e sim continuar com a sua mentira); tocar o nariz (em momentos de tensão a sensibilidade da mucosa nasal aumenta. Assim, ao mentir, o nariz coça, embora possa ser uma sensação tão suave que mal se perceba); ombro (erguer levemente um dos ombros; expressão facial falseada (quando somos genuínos, usamos os músculos faciais certos para expressar uma emoção. Num sorriso moderado e falso, não aparecem os pés de galinha, as bochechas não são levantadas e os olhos ficam menos apertados. Num sorriso real, mais músculos são utilizados e a pálpebra superior dobra-se um pouco sobre os olhos).

Fale um pouco sobre a técnica de reconhecimento da mentiras através de microexpressões faciais?
Quando analiso uma pessoa, presto muita atenção em suas expressões faciais, que duram microssegundos, quase um flash. Estas expressões são instintivas e expressam a real emoção que a pessoa sente naquele momento, mesmo quando está dizendo outra coisa. Elas aparecem após uma afirmação, contrariando o que a pessoa disse, no caso de ela estar mentindo. Microexpressões faciais são instintivas e espontâneas, por isso é muito difícil reproduzi-las conscientemente. É possível detectá-las com treinamento.

Ao terminar de ler o livro, a pessoa estará apta para detectar que tipo de mentiras?

O livro traz uma nova perspectiva, que permite ao leitor obter mais informações do que normalmente obtém apenas lendo os sinais verbais do seu interlocutor e poderá usar isso em momentos decisivos de sua vida.

Quem mente mais, homens ou mulheres?
Pela minha constatação, ambos mentem na mesma proporção.

Quais são as mentiras mais usadas?
Com base nas cerca de 200 entrevistas que me permitiram estabelecer perfis e comportamentos típicos de mentirosos, concluí que as mulheres tendem a mentir fazendo referência a acidentes, a fatos tristes. Os homens, por sua vez, costumam mentir contando vantagens, aumentando ou inventando feitos profissionais, pessoais, sexuais. Cada sexo tende a usar sua característica mais forte, mesmo na criação da mentira. Mas isso não quer dizer que sempre será assim. É apenas uma tendência.

Qual é o limite de uma mentira?
Quando se trata da mentira, as sociedades têm uma percepção e um nível de tolerância diferentes umas das outras. Dependendo do grupo, da relação, do sistema de poder, mentir pode ser objeto de orgulho ou de vergonha, de elogio ou de recriminação.

Do que serve saber se a pessoa está mentindo? Às vezes não é melhor a mentira do que a verdade?
A mentira é um ato instintivo de preservação do ser humano, sem ela a sociedade entraria em colapso. Pesquisas mostram que, em média, mentimos três vezes a cada dez minutos, mesmo que nem percebamos isso. E mentimos não porque temos problemas em dizer a verdade. Em muitos casos, é provável que mintamos para atenuar o impacto que a verdade teria. Ou seja, mentimos de forma a evitar magoar pessoas com quem nos importamos, ou para evitar situações embaraçosas, constrangedoras. Na outra ponta, estão as mais inofensivas mentiras que podemos contar: as mentiras sociais, que tornam a convivência diária mais amena. Quantas vezes concordamos com alguém para evitar o debate ou incentivamos uma pessoa querida a vencer um grande problema mesmo sabendo que a chance é ínfima? Há milhares de razões para mentirmos. Mas, frequentemente, movidos pela vergonha ou pelo orgulho. No ambiente de trabalho também há muita mentira.

Você se graduou em Física. o que o atraiu para esse ramo de segurança na internet e em detecção de mentiras?
Fui o primeiro – e, até agora, único – brasileiro a passar pelas salas de aula do BATI (Behaviour Analysis Training Institute). A experiência de um investigador faz com que se perceba, instintivamente, que estamos frente a frente com alguém que tenta nos enganar. Mas a técnica de detecção de mentiras, sem dúvida, é um considerável passo adiante.

 

 



Fonte: http://jornal.ofluminense.com.br

 



 


Data do artigo: Dom, 04 de Dezembro de 2011

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